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Mulheres de Areia: Rússia teria exibido o final no dia da eleição, diz Memória Globo

O Memória Globo registra que a Rússia pôs o último capítulo de Mulheres de Areia no dia de eleição. Veja o que a fonte diz, o que não diz e a lista de países.

Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

Marcos Frota segurando um par de óculos rosa diante do rosto, de camisa branca
Foto: Lindomar Cruz/ABr / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR), 2007. Arquivo original, CC BY 3.0 BR

O Memória Globo, o acervo da própria emissora, diz que "Mulheres de Areia" fez tanto sucesso na Rússia que o governo exibiu o último capítulo no dia em que haveria eleições. A ideia, segundo a nota, era evitar que a população viajasse no feriado e deixasse de votar.

É uma das histórias mais curiosas da exportação de novela brasileira. Também é uma das que menos se consegue confirmar fora do próprio acervo, e a gente vai separar uma coisa da outra aqui.

O que o Memória Globo escreve sobre a Rússia

A frase está na página de curiosidades da novela, publicada em 2021 e atualizada em 2023: "Há registros de que a novela fez tanto sucesso na Rússia que o governo exibiu o último capítulo no dia em que haveria eleições. A intenção era tentar evitar que a população viajasse no feriado e não comparecesse às urnas."

Repare no verbo. "Há registros de que" não é "a Globo confirma" nem "aconteceu em tal data". É a forma que o acervo usa para relatar algo sem dar o documento na mão do leitor. A gente trata a história com esse mesmo cuidado: contada como registro do Memória Globo, não como fato comprovado por fonte russa.

O que a fonte não diz (e nós também não)

A nota não informa qual eleição foi, em que ano, em que emissora russa a novela passou nem quantas pessoas assistiram. Também não diz que a estratégia funcionou. Procuramos outra fonte, russa ou jornalística, que trouxesse esses detalhes, e não encontramos nenhuma que sustentasse a história com data. Por isso, neste texto não há ano de eleição, audiência nem nome de emissora: seriam palpite.

Isso não derruba a história, só mostra o tamanho dela. Uma novela brasileira de 1993 teria sido usada como isca para segurar gente em casa num dia de votação. Se for verdade, é um uso de novela que nenhum autor imaginou.

Como uma novela das 18h chegou a tanta gente

Para entender o tamanho do fenômeno, vale olhar a lista. O Memória Globo diz que "diversos países compraram" a novela e cita Grécia, Indonésia, Bélgica, Benin, Camarões, Canadá, Chile, Chipre, Coreia, Costa do Marfim, Cuba, Estados Unidos, Espanha, Gabão, Hungria, Israel, Líbano, Marrocos, Martinica, Peru, Polônia, Portugal, Rússia, Suíça, Turquia e Venezuela.

A página repete Grécia e Indonésia na lista. Tirando as repetições, são 26 nomes, e um deles, Martinica, é um território francês, não um país. A conta fica assim: 26 destinos citados, não "dezenas de países" cravados. Quem escreve "vendida para 50 países" por aí não tem esse número nesta fonte.

A lista também tem um desenho curioso. Há vizinhos da América do Sul, parte da Europa, países africanos de língua francesa, o Oriente Médio e dois países asiáticos. É o mapa de uma novela que atravessou idioma e cultura. Se você gosta desse assunto, o guia sobre as novelas brasileiras de sucesso no exterior mostra o resto do caminho, e a matéria sobre os 132 países de Avenida Brasil mostra até onde essa conta pode chegar.

O prêmio internacional que a Globo ganhou pelo anúncio de venda

Tem um detalhe de bastidor comercial que quase ninguém conhece. Segundo o Memória Globo, o prêmio Melhor Campanha de Mídia Impressa de 1993 foi concedido pela revista inglesa especializada TV World ao anúncio com o qual a Globo oferecia os direitos da produção ao mercado internacional.

Quem recebeu o prêmio foi Roberto Filippelli, diretor de Vendas Internacionais para a Europa. Ou seja: antes de a novela entrar na tela de qualquer país, o anúncio dela já era premiado entre os compradores de programas. A novela vendeu também por ter sido bem vendida.

A novela que quase estreou em 1992

"Mulheres de Areia" estava prevista para junho de 1992, depois de "Felicidade" (1991). A gravidez de Gloria Pires adiou o lançamento, e o horário foi ocupado por "Despedida de Solteiro" (1992), segundo o Memória Globo.

A novela foi ao ar em 1993. A espera tinha motivo: Gloria Pires faz as duas protagonistas, as gêmeas Ruth e Raquel. Sem ela, não havia novela. A produção esperou a atriz em vez de trocar o papel, e o resultado foi um dos grandes sucessos do horário das 18h, na descrição do próprio acervo.

Duas irmãs idênticas, uma doce e outra má

A história se passa em Pontal D'Areia, cidade fictícia do litoral fluminense. Ruth volta para casa depois de dar aulas na escola primária de uma fazenda e reencontra a irmã gêmea, Raquel. Fisicamente iguais, as duas têm personalidades opostas: Ruth é doce, calma e de bom coração; Raquel é egoísta, agressiva e má.

Raquel quer o namorado de Ruth, o empresário Marcos Assunção (Guilherme Fontes), e usa a semelhança para chegar a ele. É o tipo de enredo que não precisa de legenda: duas irmãs, um homem rico, uma mentira e a troca de identidade. É também o tipo de história que viaja bem, e ajuda a explicar a lista de países da seção anterior.

Entre os personagens que o acervo destaca está Tonho da Lua, vivido por Marcos Frota, que "cativou o público e garantiu momentos emocionantes à história". Tonho tem amor platônico por Ruth, a protege e faz de tudo para vê-la feliz.

Como Gloria Pires contracenava com ela mesma

A novela de 1993 não tinha os efeitos de hoje, e mesmo assim as gêmeas dividiam a mesma cena. O diretor Carlos Magalhães pesquisou a técnica de duplicação de imagem. Inicialmente foi usado só o Ultimatte, equipamento de chromakey que troca o fundo azul por outra imagem. A novidade foi juntá-lo ao Memory Head, um cabeçote de memória que guarda o movimento de câmera e o repete na hora do chromakey.

O resultado, segundo o Memória Globo, é que a câmera não precisava mais ficar travada, o que não ocorria antes. Quando uma das gêmeas aparecia de costas, entrava a dublê Graziela di Laurentis.

O diretor Wolf Maya conta que o desafio foi unir dramaturgia e o fascínio dos truques tecnológicos. Ele destaca o profissionalismo de Gloria Pires: a própria atriz fazia a continuidade das duas personagens e sabia onde estava com a mão ou como tinha mexido no cabelo. A equipe marcava nas paredes do cenário, com fita crepe, o ponto exato para onde ela devia olhar.

Onde se passava, de verdade, uma cidade que não existe

Pontal D'Areia não existe no mapa. As externas foram gravadas em três lugares do Rio de Janeiro: a cidade cenográfica de Jacarepaguá, na Zona Oeste; Angra dos Reis, na Costa Verde; e Tarituba, no litoral sul fluminense.

A cidade cenográfica foi inserida, por newsmate, sobre a imagem da praia de Angra dos Reis, com a fachada do hotel usado como locação. O recurso recorta imagens gravadas sobre o chromakey. Para os estúdios, foram criados 170 ambientes de cenário.

Se a novela chegou à Rússia, chegou assim: uma praia de Angra com uma cidade cenográfica encaixada por cima, e uma atriz fazendo duas irmãs ao mesmo tempo.

A abertura que resumia a trama em água e areia

A modelo carioca Mônica Carvalho, que ainda não tinha estreado como atriz, foi a estrela da abertura. O tema era "Sexy Iemanjá", de Pepeu Gomes. Na vinheta, ela surge ora da água, ora da areia, como as duas irmãs. Efeitos de computação gráfica põem as imagens de costas uma para a outra, até que ela vira uma única mulher.

O figurino também foi pensado para separar as gêmeas. As figurinistas Marília Carneiro e Helena Brício vestiram Ruth de longuetes de viscose com estampa de florzinhas, à moda praiana. Raquel, consumista, aparecia de vermelho, com roupas extravagantes e joias chamativas. As roupas dos pescadores eram novas e passavam por envelhecimento para parecerem surradas: o jeans era lixado na pedra e recebia tinta, tudo à mão.

De onde veio a história: 1973, a Tupi e O Espantalho

Ivani Ribeiro baseou a versão de 1993 em duas novelas dela mesma: a primeira "Mulheres de Areia", exibida pela TV Tupi em 1973, e "O Espantalho", que assinou na TV Record em 1977.

O elenco guarda uma ponte entre as duas versões. Carlos Zara, o Zé Pedro de 1993, pai de Tônia (Andréa Beltrão), tinha sido Marcos Assunção na primeira. As gêmeas tinham sido interpretadas por Eva Wilma, e Tonho da Lua, por Gianfrancesco Guarnieri. Entre 1973 e 1993 passam 20 anos, e a mesma história ainda fazia sucesso. Para ver como a Globo trata esse caminho de refazer novelas, veja também a matéria sobre os remakes de novelas da Globo.

As reprises: 1996, 2011, 2015 e 2023

Depois da exibição original, a novela voltou quatro vezes, segundo o Memória Globo: em 1996 e 2011 no "Vale a Pena Ver de Novo", em 2015 no Viva e em 2023 na faixa vespertina "Edição Especial", na TV Globo.

De 1993 a 2023 são 30 anos. Quem era criança quando Ruth e Raquel foram ao ar pode ter acompanhado a trama de novo aos 30 e, depois, ao lado dos filhos. É memória de sofá no sentido literal. Para quem quer rever esse tipo de novela hoje, o guia de onde assistir novelas antigas reúne os caminhos.

O que dá para dizer com segurança

O que está na fonte: a novela foi vendida a vários países, a Rússia está na lista, e o acervo da Globo registra que o governo de lá exibiu o último capítulo no dia de eleição para tentar segurar o eleitor em casa. O que não está: o ano, a eleição, a emissora e qualquer prova de que o plano deu certo.

Para conferir o registro original, a página de curiosidades está no Memória Globo. A história da novela no mundo continua no guia da telenovela brasileira.

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