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Dedé soma 73 filmes e revela multidões levadas pelos Trapalhões

Dedé Santana diz ter feito 73 filmes, 43 deles com os Trapalhões. Cinco passaram de 5 milhões de espectadores, segundo a Ancine, e tudo começou no circo.

Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

Dedé Santana, de casaca azul e dourada e gravata borboleta vermelha, sorri encostado em um mastro de circo, em turnê pelo Brasil
Foto: Fabiano Battaglin/gshow. Fonte original

Dedé Santana contabilizou 73 filmes na carreira e recolocou em evidência um feito que ultrapassa a memória dos domingos na televisão. Em entrevista publicada pelo gshow em 12 de outubro, o humorista lembrou sua trajetória enquanto o gshow destacou cinco longas dos Trapalhões que passaram, cada um, de cinco milhões de espectadores.

Segundo a entrevista de Dedé ao gshow, 43 dos filmes citados por ele foram realizados com os colegas do grupo. Aos 90 anos, o artista associou essa produção à formação circense e definiu sua contribuição com uma frase: “Levei humor do circo para a televisão”.

5 filmes ajudam a medir o tamanho desse público?

Os números da Ancine (dados de 2024) reproduzidos pelo gshow colocam O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, de 1977, à frente dos demais títulos citados, com 5.786.226 espectadores. Os Saltimbancos Trapalhões, de 1981, aparece com 5.218.478.

A relação inclui Os Trapalhões na Guerra dos Planetas, com 5.089.970, Os Trapalhões na Serra Pelada, com 5.043.350, e O Cinderelo Trapalhão, com 5.028.893. São públicos de filmes específicos, não valores de faturamento nem uma contagem de pessoas diferentes somadas entre todas as obras.

Como o picadeiro entrou nessa história?

O depoimento de Dedé preservado pelo Memória Globo descreve uma infância passada entre apresentações e deslocamentos com o circo da família. Seu pai era o palhaço Picolino; a mãe, Ondina Santana, trabalhava como contorcionista.

O artista contou que, quando a família se estabeleceu em São Paulo, dividia a rotina entre escola, trabalhos durante a tarde e apresentações à noite. Entre as ocupações mencionadas estão ajudante de mecânico, engraxate e trabalho em confecção.

No circo, a experiência não ficava restrita a fazer graça diante do público. Dedé praticava números no arame, no trapézio e no globo da morte, além de interpretar diferentes tipos nos espetáculos encenados pela família.

Quem cresceu com a TV aberta da época, a de Sessão da Tarde e de domingo em família, reconhece o jeito. Essa formação ajuda a entender por que seu trabalho na televisão incluía quedas, movimentos rápidos e brigas coreografadas. O corpo fazia parte da construção da piada, e não apenas acompanhava uma fala escrita por outra pessoa.

Por que Dedé era mais do que o parceiro de Didi?

Na descrição dos personagens feita pelo Memória Globo, Dedé aparece como o integrante autoconfiante que se considerava mais bonito e esperto do que demonstrava ser. Essa postura criava um contraste com a aparente ingenuidade de Didi.

O arquivo também explica a função de escada, expressão usada no humor para quem prepara a situação que permite ao colega concluir a piada. Exercer esse papel não significa estar fora da criação: a reação, a pausa e a disposição corporal sustentam o efeito da cena.

Mussum acrescentava ao conjunto um tipo associado à malandragem e a uma maneira própria de falar. Zacarias, por sua vez, usava voz infantilizada, peruca e um comportamento mais ingênuo, que dialogava diretamente com as crianças.

A combinação dessas diferenças ajuda a ler o quarteto como uma engrenagem, e não como quatro intérpretes intercambiáveis. Cada presença modificava o ritmo do encontro e a maneira como uma mesma situação podia terminar em confusão.

A mudança para a Globo chegou a ser cercada de receio?

O Memória Globo registra que Renato Aragão tinha dúvidas sobre levar o programa para a emissora em 1977. O humorista temia perder a liberdade de improvisar que possuía na Tupi e não sabia como o grupo se encaixaria no padrão de produção da nova casa.

Diante do convite de Boni, apresentou uma lista de exigências que incluía equipe e horário. O relato preservado no arquivo informa que as condições foram aceitas, permitindo a transferência dos comediantes.

A Globo de Irmãos Coragem e Mulheres de Areia também guarda esse acervo. A atração combinava esquetes de durações variadas com números musicais. Uma história com diálogos e ação podia dar lugar a uma piada visual curta ou a uma paródia, como Trapaswat, inspirada no seriado policial americano.

Essa estrutura não dependia de uma trama contínua entre todos os segmentos. A ligação principal era o próprio grupo, que levava seus personagens e sua forma de reagir a ambientes, figurinos e situações diferentes.

Por que a estreia não começou diretamente no domingo?

Antes da entrada regular na programação, a Globo exibiu dois especiais dos Trapalhões, em 7 de janeiro e 5 de fevereiro de 1977. O arquivo da emissora explica que a grade daquele ano seria lançada em março, mas os programas anteciparam a presença do quarteto.

Essas apresentações passaram pela faixa noturna Sexta Super e reuniam cenas externas e quadros curtos. O humor misturava situações absurdas, movimentação física e improvisação, sem depender apenas de piadas contadas em sequência.

A existência dos especiais também mostra que a identificação com o domingo foi construída ao longo da trajetória. O grupo não surgiu pronto, em um único horário, com todas as características pelas quais seria lembrado décadas depois.

O registro preserva uma fase de transição entre emissoras. Antes de conquistar uma rotina semanal na Globo, os artistas já carregavam uma experiência desenvolvida em outros canais e colocaram esse repertório diante de um novo público.

Como os erros do cenário viravam parte da graça?

A página de produção do Memória Globo descreve um hábito que contrariava a tentativa de esconder os mecanismos da televisão. Didi podia levantar a grama cenográfica, revelar objetos falsos ou desmontar, dentro da própria cena, a aparência de um ambiente real.

Rochas de isopor, comida cenográfica e paredes que não resistiam a uma passagem deixavam de ser somente recursos de bastidor. A descoberta do truque podia se tornar a piada que o público recebia.

Os colegas também riam durante as falas e depois retomavam o texto. Segundo o arquivo, a improvisação foi defendida por Renato Aragão como parte tão importante do programa quanto o roteiro.

Esse procedimento aproximava a televisão da relação direta entre artista e plateia existente no circo. Em vez de exigir que ninguém percebesse a encenação, o humor convidava o espectador a reconhecer o artifício e rir junto dos comediantes.

Que mudanças impediram o programa de ficar parado no tempo?

Em 1990, o quadro Trapa Hotel colocou os personagens em um estabelecimento decadente. Didi era gerente, Dedé cuidava de esportes e lazer, e Mussum aparecia como segurança; o cenário criado por Leila Moreira tinha dois andares, elevador e porta giratória.

Dois anos depois, Vila Vintém trouxe histórias completas ambientadas em um bairro suburbano. No episódio inicial, A Garota, a homenagem a Charles Chaplin incluía Didi como Bonga, que acolhia uma menina, enquanto Dedé era dono de uma oficina.

A Agência Trapatudo explorava outro ambiente: uma agência de talentos com entrevistas e apresentações de convidados. Esses quadros davam ao conjunto novos espaços de convivência, sem eliminar a identidade dos intérpretes.

O histórico também registra Os Piratas e Nos Cafundós do Brejo entre as experiências posteriores. O programa não se limitou, portanto, a repetir o mesmo desenho de esquete durante toda a permanência na televisão.

O sucesso ficou restrito ao público brasileiro?

Segundo o Memória Globo, o programa foi vendido para países como Angola, Canadá, Estados Unidos e Portugal. A circulação internacional levou a marca dos Trapalhões para além da grade brasileira, embora cada mercado tivesse sua própria forma de exibição.

Em Portugal, a SIC apresentou, em 1995, uma versão com Renato Aragão, Dedé Santana, Roberto Guilherme e atores portugueses. Nesse caso, não se tratava apenas de colocar um episódio antigo no ar, mas de adaptar a presença do grupo a uma produção local.

O arquivo também reúne manifestações de artistas e escritores sobre o quarteto. Entre elas estão uma homenagem de Caetano Veloso e elogios de Carlos Drummond de Andrade, registros que ampliam o alcance cultural do programa.

Essa circulação não permite calcular automaticamente uma audiência mundial. Ela demonstra, de maneira mais concreta, que os personagens atravessaram fronteiras e despertaram interesse também fora do espaço em que foram originalmente produzidos.

Como o grupo transformou aniversários em maratonas de televisão?

O especial de 15 anos dos Trapalhões, exibido em julho de 1981, ocupou oito horas e reuniu artistas, jornalistas e músicos. Segundo o arquivo da Globo, a celebração também serviu para divulgar uma campanha relacionada à doação de córneas.

A comemoração dos 25 anos adotou outra escala: foram 25 horas de programação, com mobilização em torno dos direitos das crianças. O evento incluiu participações ao vivo, apresentações e momentos dedicados à arrecadação para ações do Unicef.

Essas iniciativas mostram uma utilização do prestígio do grupo que ia além da comédia semanal. A relação com o público foi aproveitada para organizar longas transmissões e reunir diferentes áreas do elenco da emissora.

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