Sinhozinho Malta disparou as vendas de perucas masculinas em 80%
Roque Santeiro (1985) mexeu com a vaidade masculina: segundo dados da época citados pelo Memória Globo, a venda de perucas subiu 80% com Sinhozinho Malta.
Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

Sinhozinho Malta, o coronel de Roque Santeiro (1985), fez homem brasileiro comprar peruca: segundo dados da época citados pelo Memória Globo, as vendas subiram 80% no país.
O número está num texto de bastidores do próprio Memória Globo, o acervo de memória da emissora. A frase é curta e vale ler inteira: o personagem de Lima Duarte "mexeu com a vaidade masculina", e o sucesso dele "alavancou a produção nacional de perucas masculinas".
O que Sinhozinho trazia no corpo?
O Memória Globo lista o figurino do coronel item por item. O braço vivia cheio de pulseiras, com relógio e colares de ouro por cima. Os chapéus eram inspirados no seriado americano Dallas. Os colarinhos tinham biqueiras de metal prateado. E, no meio de tudo isso, as perucas.
Parece exagero de fantasia, e era. Mas a lista mostra um personagem pensado da cabeça aos pulsos: o fazendeiro que manda na cidade e quer que todo mundo veja o quanto manda.
O que o "80%" diz (e o que não diz)
O texto do Memória Globo afirma que, "segundo dados da época", o sucesso do personagem fez a produção nacional de perucas masculinas crescer e que as vendas aumentaram 80% no país. Só isso.
A página não diz qual pesquisa, qual instituto ou qual período está por trás do número. Também não informa de que base de vendas se partiu. Por isso o 80% entra aqui como o Memória Globo o apresenta: um dado de época citado pelo acervo da emissora, não uma medição que a gente tenha conferido em outra fonte.
Leitura da redação: mesmo com essa ressalva, o dado diz bastante sobre o tamanho da novela. Ninguém atribui uma alta de vendas a um personagem de TV se o personagem não estiver em todas as conversas do país.
Porcina também virou moda
O coronel não estava sozinho. O Memória Globo registra que o figurino da Viúva Porcina, de Regina Duarte, "virou moda" e deu origem ao "Porcina's look": maquiagem exagerada, vestidos colantes (em geral de seda, com drapeados e decotes profundos), cores e bijuterias extravagantes, muito brilho, chapéus, turbantes, óculos berrantes e sapatos de salto altíssimo.
Era um visual de quem não pede licença. E a própria atriz fala disso com carinho. "Com ela eu aprendi a ter uma atitude positiva e de autoestima", contou Regina Duarte ao Memória Globo, lembrando que antes só usava "o brinco que combinava com o sapato, com a bolsa".
Quem desenhava esse exagero?
Os figurinos de Roque Santeiro, em geral, foram idealizados por Marco Aurélio. Segundo o Memória Globo, eram "todos pitorescos" e dialogavam com o colorido e a fantasia dos cenários. O assistente dele era Lessa de Lacerda, que tempos depois entrou para o time de figurinistas de novelas da Globo.
A ideia de unir roupa e cenário importa para entender o fenômeno. O espectador não via só um homem de peruca: via um homem de peruca andando numa cidade feita de cor e de símbolo, onde cada detalhe tinha o mesmo tom.
E o som do coronel?
Aqui a novela inventou outro jeito de marcar personagem. Segundo o Memória Globo, quando Sinhozinho Malta ficava nervoso, sacudia o relógio e as pulseiras de ouro, e o que se ouvia era o som de uma cascavel misturado ao chocalho das pulseiras. O bordão completava a cena: "Tô certo ou tô errado?".
Outro efeito pontuava as cenas em que ele mostrava como decepava a parte íntima de inimigos e de bois. O gesto vinha com o som de uma guilhotina. Já Zé das Medalhas (Armando Bógus), com o tique de esticar o queixo, ganhava o barulho de ossos estalando.
Quem assistiu na época talvez lembre menos do enredo e mais desses sons. É o tipo de detalhe que gruda: o ouro balança, a cascavel chacoalha, o Brasil inteiro sabe que o coronel perdeu a paciência.
Uma cidade de madeira em 20 dias
A moda não nasceu só da roupa. A cidade de Asa Branca, onde tudo acontecia, foi construída em Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro. O cenógrafo Mário Monteiro se inspirou em três cidades de forte apelo religioso: Juazeiro do Norte (CE), Porto das Caixas (RJ) e Aparecida (SP).
O Memória Globo informa que, "em tempo recorde", 20 dias, 180 homens levantaram 26 prédios de madeira tratada, para durar mais. A barbearia e a igreja tiveram o interior montado nas externas, o que reduzia as gravações em estúdio. O centro da cidade era a Praça da Matriz, com a estátua de Roque Santeiro e as barraquinhas que vendiam suvenir do "santo".
A equipe misturou o colonial carioca com o nordestino, o Centro-Oeste e o Sul, para que Asa Branca representasse o Brasil inteiro. Os sotaques seguiam a mesma ideia: nordestino para Sinhozinho Malta e Porcina, mineiro para Seu Flô, gaúcho para o delegado, carioca para Matilde, Ninon e Rosaly.
Por que a novela pegou tão forte?
Lima Duarte deu a própria explicação ao Memória Globo. Para ele, com a abertura gradual do país (ele cita o governo Geisel) veio a sensação de "agora podemos fazer a novela", e Roque Santeiro foi "um deslanchador dessa revolução, na televisão pelo menos". A história da proibição de 1975 está contada na matéria sobre a novela censurada.
Os números de 1985 acompanham a fala. A novela, segundo o Memória Globo, atingiu recordes de audiência logo na primeira semana. Em Recife, segundo jornais da época, candidatos a deputado cancelaram comícios no horário em que ela ia ao ar. E a alta audiência rendeu à Globo o prêmio Destaque de Marketing 1985, da Associação Brasileira de Marketing.
O casal que quase teve outras caras
Regina Duarte, hoje sinônimo de Porcina, não foi a primeira ideia. Segundo Lima Duarte, a direção sondou Sônia Braga, Vera Fischer, Marília Pêra e Fernanda Montenegro antes de chegar a ela. Para o Memória Globo, a escolha final foi a mais acertada: o entrosamento do casal Sinhozinho e Porcina "foi perfeito".
Na versão censurada, Lima Duarte também fazia o coronel, mas contracenava com Betty Faria. Em 1985 ele deu ao personagem um tom mais cômico, e o personagem ficou tão comentado que, a crer no dado de época, chegou até à loja de perucas. Quem quiser conferir quem fazia quem está na lista de personagens e atores de Roque Santeiro.
Até costureiro virou personagem
A moda estava tão no centro da trama que a novela chamou gente de peso só para falar dela. Segundo o Memória Globo, Cláudio Gaya e Jorge Fernando interpretaram dois costureiros da capital que iam a Asa Branca especialmente para fazer o vestido de noiva da Viúva Porcina. A lista de participações especiais ainda trazia Lilian Lemmertz, Dennis Carvalho, Marcos Paulo, Paulo César Pereio e Tarcísio Meira.
Nos detalhes de elenco, o acervo guarda outras histórias de vitrine. Claudia Raia, escalada para um papel pequeno, o da dançarina Ninon, ganhou notoriedade com as cenas e virou símbolo sexual. Yoná Magalhães, como Matilde, vestiu pela primeira vez uma malha na TV: estava tão em forma que, aos 51 anos, foi chamada para posar para a Playboy. Roque Santeiro foi ainda a primeira novela da Globo de Maurício Mattar, Claudia Raia e Patrícia Pillar.
A abertura que também fez barulho
Se a roupa e o som marcaram os personagens, a abertura marcou a novela. O designer Hans Donner usou chromakey para fazer boias-frias, carros e tratores andarem sobre folhas, milhos, frutas e rochas gigantes. Em algumas cenas, a equipe usou miniaturas de carros, kombi e caminhões, formando um engarrafamento sobre uma vitória-régia natural. A vinheta ainda mostrava uma moto em alta velocidade sobre um coco e um carro de boi andando sobre uma espiga de milho.
Roque Santeiro foi vendida para vários países, entre eles Angola, Argentina, Canadá, Chile, Cuba, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal. Foi também a primeira novela de Dias Gomes exibida às 20h: até então, o autor escrevia para as 22h.
Dois finais, e o que mudou 40 anos depois
Na exibição original e nas reprises, Porcina escolhia ficar com Sinhozinho Malta. Mas Regina Duarte lembra que foram gravados dois finais. No Globoplay Novelas, em 4 de julho de 2025, foi ao ar pela primeira vez o final alternativo: Porcina vai embora com Roque, e o coronel fica sozinho em Asa Branca.
A novela já havia voltado antes: de 1º de julho de 1991 a 3 de janeiro de 1992, no fim da tarde, e de 11 de dezembro de 2000 a 29 de junho de 2001, no Vale a Pena Ver de Novo. Agora está de volta à grade da Globo, e a estreia da reprise teve 10,8 pontos na Grande São Paulo.
Onde ver a novela hoje
Para quem quer reencontrar o coronel e a viúva, vale a lista de onde assistir novelas antigas. E, para entender como a novela virou o centro da conversa nacional, a história da telenovela brasileira mostra o caminho até 1985.
Se o seu pai ou o seu avô tinha uma peruca guardada na gaveta, a novela pode ter uma parte nisso. Pelo menos é o que sugere um número de 80% que, até hoje, o Memória Globo guarda como lembrança de época.
Fontes
- Memória Globo: Roque Santeiro, bastidores (conferido em 14 de outubro de 2026)
- Memória Globo: Roque Santeiro, curiosidades (conferido em 14 de outubro de 2026)
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