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Roque Santeiro foi censurada em 1975 e só foi ao ar dez anos depois

A Globo gravou 30 capítulos de Roque Santeiro em 1975 e a Censura barrou. Veja quem faria cada papel na versão vetada e o que mudou na estreia de 1985.

Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

A atriz Regina Duarte sorrindo, de lado, em evento de 2010
Foto: Leivison / Wikimedia Commons (domínio público). Arquivo original, Domínio público

A Globo gravou 30 capítulos de Roque Santeiro em 1975, a Censura Federal barrou a novela e ela só estreou em 24 de junho de 1985, com quase todo o elenco novo.

Dez anos separam as duas versões, e a trama central ficou praticamente a mesma. O que mudou foi o rosto de quem a contava: Porcina trocou de atriz, Roque trocou de ator, e a emissora ganhou no meio do caminho um fenômeno que ninguém previa em 1975. Tudo a seguir vem do acervo oficial da emissora, o Memória Globo.

A descoberta da Censura, com 30 capítulos já gravados

A primeira versão já tinha 30 capítulos prontos quando a Censura Federal percebeu que a novela era uma adaptação de O Berço do Herói, texto de teatro que Dias Gomes escreveu em 1963 e que já havia sido vetado antes. Segundo o Memória Globo, foi isso que derrubou a produção.

No dia da proibição, o locutor Cid Moreira leu no Jornal Nacional um editorial assinado pelo presidente da Globo, Roberto Marinho, anunciando o veto. A emissora ficou com um buraco na grade e três meses para preencher. Exibiu uma reprise compacta de Selva de Pedra (1972), de Janete Clair, e depois estreou Pecado Capital (1975), da mesma autora, feita às pressas com parte do elenco e dos cenários de Roque Santeiro.

As páginas abertas do Memória Globo não trazem o dia e o mês do veto. Por isso este texto fala só em "1975".

Quem faria cada papel em 1975 e quem ficou com ele em 1985

A tabela cruza o que o Memória Globo diz sobre a versão censurada com a ficha da versão de 1985.

Papel Versão censurada (1975) Versão de 1985
Viúva Porcina Betty Faria Regina Duarte
Sinhozinho Malta Lima Duarte Lima Duarte
Roque Santeiro Francisco Cuoco José Wilker
Padre Hipólito Milton Gonçalves Paulo Gracindo
Tânia Elizangela (escalada) Lídia Brondi
Roberto Mathias Dennis Carvalho (escalado) Fábio Jr.
Jiló João Carlos Barroso João Carlos Barroso
Tito Luiz Armando Queiroz Luiz Armando Queiroz
Mina Ilva Niño Ilva Niño

Milton Gonçalves não ficou de fora em 1985: ganhou o papel do promotor público Lourival. Elizangela e Dennis Carvalho também voltaram, de outro jeito. Marcos Paulo, que estava escalado como Gerson, o diretor de cinema da primeira versão, fez uma participação especial em 1985 e foi ainda um dos quatro diretores da novela.

Lima Duarte, o único dos protagonistas que repetiu

Lima Duarte é o único dos três nomes centrais de 1975 que reaparece em 1985, e o Memória Globo conta que ele mudou o tom do personagem. Segundo o acervo, diferentemente da versão censurada, em que contracenava com Betty Faria, Lima Duarte emprestou um tom mais cômico ao Sinhozinho Malta.

A troca de parceira pesou. O mesmo texto diz que o entrosamento do casal Sinhozinho e Porcina foi perfeito. As brigas dos dois, em que Sinhozinho chegou a ficar de quatro e lamber a mão da "dona" para pedir perdão, viraram marca da novela.

Regina Duarte não foi a primeira escolha para Porcina

Segundo o próprio Lima Duarte, em depoimento ao Memória Globo, Sônia Braga, Vera Fischer, Marília Pêra e Fernanda Montenegro chegaram a ser sondadas para o papel. A escolha final, diz o acervo, "mostrou-se a mais acertada".

Regina Duarte vinha da imagem de "namoradinha do Brasil". A Porcina era o oposto: cômica, exuberante, de maquiagem pesada, vestido colante de seda, turbante, óculos berrantes e salto altíssimo. O visual virou moda e ganhou nome, o "Porcina's look".

Ela mesma resumiu o que o papel lhe deu: "Com a Porcina eu percebi que podia ser livre, podia usar qualquer cor, que não havia regras". A atriz conta que antes só usava o brinco que combinava com o sapato e com a bolsa.

O elenco de 1975 tentou chegar ao presidente

Dennis Carvalho, que interpretaria Roberto Mathias, lembra no Memória Globo que sugeriu uma viagem do elenco a Brasília como protesto, na esperança de ser recebido pelo presidente da República, Ernesto Geisel. A audiência com o presidente não aconteceu, mas a viagem rendeu cobertura da imprensa.

Boni, José Bonifácio de Oliveira, teve uma breve internação em casa de saúde, com suspeita de infarto, depois da intervenção da Censura.

É uma cena rara: um elenco inteiro, com a novela já gravada, tentando bater à porta do poder para salvar o trabalho.

Dias Gomes criou, Aguinaldo Silva tocou a maior parte

Dias Gomes criou a história. Mas a versão que foi ao ar teve outro autor tocando a maior parte da escrita. Aguinaldo Silva assumiu a partir do capítulo 41, com a colaboração de Marcílio Moraes, Joaquim Assis e da pesquisadora Lilian Garcia.

Perto do fim, no capítulo 163, Dias Gomes disse que gostaria de finalizar a novela, e acabou escrevendo os capítulos finais, segundo o relato de Aguinaldo ao Memória Globo. A divisão da autoria é um dos temas do guia sobre os autores de novela do Brasil.

Foi também a primeira novela de Dias Gomes às 20h. Até ali, ele escrevia para as 22h.

Quase a mesma novela, com uma cidade nova

O Memória Globo é direto: a versão de 1985 era praticamente a mesma que havia sido censurada. Quase nenhum personagem novo entrou, e a trama central ficou idêntica, com poucas adaptações.

A mudança mais visível foi de geografia. Asa Branca deixou de ser só uma cidade do interior da Bahia e virou uma mistura de várias regiões do país. O cenógrafo Mário Monteiro se inspirou em Juazeiro do Norte (CE), Porto das Caixas (RJ) e Aparecida (SP). Em 20 dias, 180 homens construíram 26 prédios de madeira tratada em Guaratiba, na zona oeste do Rio.

Os sotaques seguiam a mesma ideia: nordestino para Sinhozinho e Porcina, mineiro para Seu Flô, gaúcho para o delegado e carioca para Matilde, Ninon e Rosaly.

Os rostos que estrearam na Globo em 1985

Roque Santeiro foi a primeira novela na Globo de Claudia Raia, Maurício Mattar e Patrícia Pillar. Claudia Raia contou que foi escalada para um papel pequeno, a dançarina e prostituta Ninon, e acabou virando símbolo sexual com as cenas que fez.

Elizangela tem uma história própria. Escalada para a Tânia da versão censurada, ela foi pessoalmente pedir um papel ao diretor Paulo Ubiratan quando soube que a novela iria ao ar. Ganhou a Marilda, mulher do Roberto Mathias de Fábio Jr. A Tânia, que seria dela, ficou com Lídia Brondi.

Yoná Magalhães, como Matilde, vestiu pela primeira vez uma malha na TV e, aos 51 anos, foi chamada para posar para a Playboy.

Lima Duarte liga a novela à abertura política

Em depoimento ao Memória Globo, Lima Duarte lembra do tempo em que se dizia: "Agora podemos fazer a novela", com "essa abertura gradual do Geisel, do Brasil". Para ele, Roque Santeiro foi um "deslanchador dessa revolução, na televisão pelo menos".

É a leitura do ator, não um dado de arquivo. Os números da estreia, esses sim, o Memória Globo traz de jornais da época: a novela bateu recorde de audiência na primeira semana, e em Recife candidatos a deputado cancelaram comícios no horário da exibição.

209 capítulos, prêmio e perucas 80% mais vendidas

Foram 209 capítulos, de 24 de junho de 1985 a 22 de fevereiro de 1986, às 20h30, com direção-geral de Paulo Ubiratan. A Globo recebeu o prêmio Destaque de Marketing 1985, da Associação Brasileira de Marketing, e a novela foi vendida para países como Angola, Argentina, Canadá, Chile, Cuba, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.

O Sinhozinho de peruca e pulseira de ouro rendeu outro dado curioso. Segundo dados da época citados pelo acervo, as vendas de perucas masculinas no Brasil aumentaram 80%.

Havia também a abertura de Hans Donner, feita com chroma key, e os efeitos sonoros: som de cascavel e de chocalho quando Sinhozinho se irritava, estalo de ossos no tique de Zé das Medalhas.

Porcina ficou com Sinhozinho ou foi embora com Roque?

Na exibição original e nas reprises, Porcina escolhe ficar com Sinhozinho Malta. Mas há um segundo final. José Wilker lembra que a Globo pensava em fazer um seriado a partir da novela, por isso a decisão era que a viúva só podia ficar com o fazendeiro. Regina Duarte lembra que dois finais foram gravados.

O final alternativo só foi ao ar 40 anos depois, em 4 de julho de 2025, no canal por assinatura Globoplay Novelas: Porcina vai embora com Roque e Sinhozinho fica sozinho em Asa Branca.

Para rever a novela, o guia de onde assistir novelas antigas lista as opções. O gênero que tornou isso possível está em a história da telenovela no Brasil, e o elenco completo de 1985 está em quem é quem em Roque Santeiro. A versão mais completa da proibição está em a novela proibida em 1975 que virou fenômeno.

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