Roque Santeiro foi censurada em 1975 e só foi ao ar dez anos depois
A Globo gravou 30 capítulos de Roque Santeiro em 1975 e a Censura barrou. Veja quem faria cada papel na versão vetada e o que mudou na estreia de 1985.
Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

A Globo gravou 30 capítulos de Roque Santeiro em 1975, a Censura Federal barrou a novela e ela só estreou em 24 de junho de 1985, com quase todo o elenco novo.
Dez anos separam as duas versões, e a trama central ficou praticamente a mesma. O que mudou foi o rosto de quem a contava: Porcina trocou de atriz, Roque trocou de ator, e a emissora ganhou no meio do caminho um fenômeno que ninguém previa em 1975. Tudo a seguir vem do acervo oficial da emissora, o Memória Globo.
A descoberta da Censura, com 30 capítulos já gravados
A primeira versão já tinha 30 capítulos prontos quando a Censura Federal percebeu que a novela era uma adaptação de O Berço do Herói, texto de teatro que Dias Gomes escreveu em 1963 e que já havia sido vetado antes. Segundo o Memória Globo, foi isso que derrubou a produção.
No dia da proibição, o locutor Cid Moreira leu no Jornal Nacional um editorial assinado pelo presidente da Globo, Roberto Marinho, anunciando o veto. A emissora ficou com um buraco na grade e três meses para preencher. Exibiu uma reprise compacta de Selva de Pedra (1972), de Janete Clair, e depois estreou Pecado Capital (1975), da mesma autora, feita às pressas com parte do elenco e dos cenários de Roque Santeiro.
As páginas abertas do Memória Globo não trazem o dia e o mês do veto. Por isso este texto fala só em "1975".
Quem faria cada papel em 1975 e quem ficou com ele em 1985
A tabela cruza o que o Memória Globo diz sobre a versão censurada com a ficha da versão de 1985.
| Papel | Versão censurada (1975) | Versão de 1985 |
|---|---|---|
| Viúva Porcina | Betty Faria | Regina Duarte |
| Sinhozinho Malta | Lima Duarte | Lima Duarte |
| Roque Santeiro | Francisco Cuoco | José Wilker |
| Padre Hipólito | Milton Gonçalves | Paulo Gracindo |
| Tânia | Elizangela (escalada) | Lídia Brondi |
| Roberto Mathias | Dennis Carvalho (escalado) | Fábio Jr. |
| Jiló | João Carlos Barroso | João Carlos Barroso |
| Tito | Luiz Armando Queiroz | Luiz Armando Queiroz |
| Mina | Ilva Niño | Ilva Niño |
Milton Gonçalves não ficou de fora em 1985: ganhou o papel do promotor público Lourival. Elizangela e Dennis Carvalho também voltaram, de outro jeito. Marcos Paulo, que estava escalado como Gerson, o diretor de cinema da primeira versão, fez uma participação especial em 1985 e foi ainda um dos quatro diretores da novela.
Lima Duarte, o único dos protagonistas que repetiu
Lima Duarte é o único dos três nomes centrais de 1975 que reaparece em 1985, e o Memória Globo conta que ele mudou o tom do personagem. Segundo o acervo, diferentemente da versão censurada, em que contracenava com Betty Faria, Lima Duarte emprestou um tom mais cômico ao Sinhozinho Malta.
A troca de parceira pesou. O mesmo texto diz que o entrosamento do casal Sinhozinho e Porcina foi perfeito. As brigas dos dois, em que Sinhozinho chegou a ficar de quatro e lamber a mão da "dona" para pedir perdão, viraram marca da novela.
Regina Duarte não foi a primeira escolha para Porcina
Segundo o próprio Lima Duarte, em depoimento ao Memória Globo, Sônia Braga, Vera Fischer, Marília Pêra e Fernanda Montenegro chegaram a ser sondadas para o papel. A escolha final, diz o acervo, "mostrou-se a mais acertada".
Regina Duarte vinha da imagem de "namoradinha do Brasil". A Porcina era o oposto: cômica, exuberante, de maquiagem pesada, vestido colante de seda, turbante, óculos berrantes e salto altíssimo. O visual virou moda e ganhou nome, o "Porcina's look".
Ela mesma resumiu o que o papel lhe deu: "Com a Porcina eu percebi que podia ser livre, podia usar qualquer cor, que não havia regras". A atriz conta que antes só usava o brinco que combinava com o sapato e com a bolsa.
O elenco de 1975 tentou chegar ao presidente
Dennis Carvalho, que interpretaria Roberto Mathias, lembra no Memória Globo que sugeriu uma viagem do elenco a Brasília como protesto, na esperança de ser recebido pelo presidente da República, Ernesto Geisel. A audiência com o presidente não aconteceu, mas a viagem rendeu cobertura da imprensa.
Boni, José Bonifácio de Oliveira, teve uma breve internação em casa de saúde, com suspeita de infarto, depois da intervenção da Censura.
É uma cena rara: um elenco inteiro, com a novela já gravada, tentando bater à porta do poder para salvar o trabalho.
Dias Gomes criou, Aguinaldo Silva tocou a maior parte
Dias Gomes criou a história. Mas a versão que foi ao ar teve outro autor tocando a maior parte da escrita. Aguinaldo Silva assumiu a partir do capítulo 41, com a colaboração de Marcílio Moraes, Joaquim Assis e da pesquisadora Lilian Garcia.
Perto do fim, no capítulo 163, Dias Gomes disse que gostaria de finalizar a novela, e acabou escrevendo os capítulos finais, segundo o relato de Aguinaldo ao Memória Globo. A divisão da autoria é um dos temas do guia sobre os autores de novela do Brasil.
Foi também a primeira novela de Dias Gomes às 20h. Até ali, ele escrevia para as 22h.
Quase a mesma novela, com uma cidade nova
O Memória Globo é direto: a versão de 1985 era praticamente a mesma que havia sido censurada. Quase nenhum personagem novo entrou, e a trama central ficou idêntica, com poucas adaptações.
A mudança mais visível foi de geografia. Asa Branca deixou de ser só uma cidade do interior da Bahia e virou uma mistura de várias regiões do país. O cenógrafo Mário Monteiro se inspirou em Juazeiro do Norte (CE), Porto das Caixas (RJ) e Aparecida (SP). Em 20 dias, 180 homens construíram 26 prédios de madeira tratada em Guaratiba, na zona oeste do Rio.
Os sotaques seguiam a mesma ideia: nordestino para Sinhozinho e Porcina, mineiro para Seu Flô, gaúcho para o delegado e carioca para Matilde, Ninon e Rosaly.
Os rostos que estrearam na Globo em 1985
Roque Santeiro foi a primeira novela na Globo de Claudia Raia, Maurício Mattar e Patrícia Pillar. Claudia Raia contou que foi escalada para um papel pequeno, a dançarina e prostituta Ninon, e acabou virando símbolo sexual com as cenas que fez.
Elizangela tem uma história própria. Escalada para a Tânia da versão censurada, ela foi pessoalmente pedir um papel ao diretor Paulo Ubiratan quando soube que a novela iria ao ar. Ganhou a Marilda, mulher do Roberto Mathias de Fábio Jr. A Tânia, que seria dela, ficou com Lídia Brondi.
Yoná Magalhães, como Matilde, vestiu pela primeira vez uma malha na TV e, aos 51 anos, foi chamada para posar para a Playboy.
Lima Duarte liga a novela à abertura política
Em depoimento ao Memória Globo, Lima Duarte lembra do tempo em que se dizia: "Agora podemos fazer a novela", com "essa abertura gradual do Geisel, do Brasil". Para ele, Roque Santeiro foi um "deslanchador dessa revolução, na televisão pelo menos".
É a leitura do ator, não um dado de arquivo. Os números da estreia, esses sim, o Memória Globo traz de jornais da época: a novela bateu recorde de audiência na primeira semana, e em Recife candidatos a deputado cancelaram comícios no horário da exibição.
209 capítulos, prêmio e perucas 80% mais vendidas
Foram 209 capítulos, de 24 de junho de 1985 a 22 de fevereiro de 1986, às 20h30, com direção-geral de Paulo Ubiratan. A Globo recebeu o prêmio Destaque de Marketing 1985, da Associação Brasileira de Marketing, e a novela foi vendida para países como Angola, Argentina, Canadá, Chile, Cuba, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.
O Sinhozinho de peruca e pulseira de ouro rendeu outro dado curioso. Segundo dados da época citados pelo acervo, as vendas de perucas masculinas no Brasil aumentaram 80%.
Havia também a abertura de Hans Donner, feita com chroma key, e os efeitos sonoros: som de cascavel e de chocalho quando Sinhozinho se irritava, estalo de ossos no tique de Zé das Medalhas.
Porcina ficou com Sinhozinho ou foi embora com Roque?
Na exibição original e nas reprises, Porcina escolhe ficar com Sinhozinho Malta. Mas há um segundo final. José Wilker lembra que a Globo pensava em fazer um seriado a partir da novela, por isso a decisão era que a viúva só podia ficar com o fazendeiro. Regina Duarte lembra que dois finais foram gravados.
O final alternativo só foi ao ar 40 anos depois, em 4 de julho de 2025, no canal por assinatura Globoplay Novelas: Porcina vai embora com Roque e Sinhozinho fica sozinho em Asa Branca.
Para rever a novela, o guia de onde assistir novelas antigas lista as opções. O gênero que tornou isso possível está em a história da telenovela no Brasil, e o elenco completo de 1985 está em quem é quem em Roque Santeiro. A versão mais completa da proibição está em a novela proibida em 1975 que virou fenômeno.
Fontes
- Memória Globo: Roque Santeiro (ficha, resumo e versão censurada de 1975) (conferido em 14 de outubro de 2026)
- Memória Globo: Roque Santeiro, curiosidades (conferido em 14 de outubro de 2026)
- Memória Globo: Roque Santeiro, bastidores (conferido em 14 de outubro de 2026)
- Memória Globo: Roque Santeiro, personagens (conferido em 14 de outubro de 2026)
- Memória Globo: Roque Santeiro, ficha técnica (conferido em 14 de outubro de 2026)
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