Glória Perez criou O Clone antes do anúncio do primeiro clone humano
Um mês após a estreia de O Clone, em 2001, um médico italiano anunciou que faria o primeiro clone humano. A trama de Glória Perez já existia. Veja os números.
Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

Em outubro de 2001, Glória Perez estreou O Clone. Um mês depois, o médico Severino Antinori anunciou que faria o primeiro clone humano, e a novela virou assunto do mundo.
Quem conta é o Memória Globo, o acervo oficial da emissora. Segundo a página de curiosidades da novela, o anúncio do italiano saiu em novembro de 2001, "exatamente um mês após a estreia". A trama já existia: tinha sido idealizada um ano antes.
Abaixo, a cronologia dessa coincidência e o que a Globo guarda de número sobre a novela: audiência, países, bordões e bastidores. Sobre Antinori, este texto trata só do anúncio, que é o que a fonte registra.
O que aconteceu em novembro de 2001
O tema da clonagem humana ganhou as primeiras páginas de jornais de todo o mundo, diz o Memória Globo, quando Antinori anunciou que faria o primeiro clone humano. Era novembro. A novela tinha estreado em outubro.
Para quem acompanhava a trama, a sensação era de ver a ficção sair da tela. Lucas e Diogo, gêmeos interpretados por Murilo Benício, e o clone Léo, também vivido por ele, estavam toda noite na sala de milhões de brasileiros.
Segundo a própria Globo, o assunto "até então era pouco discutido" e "explodiu na mídia". A emissora tinha uma novela sobre clonagem no ar justo quando o tema virou manchete.
A novela já estava pronta na cabeça da autora
A trama de Glória Perez foi idealizada um ano antes do anúncio do italiano. É essa a frase que sustenta o título deste texto: a autora não correu atrás da notícia, a notícia chegou depois.
Pelo Memória Globo, a ideia nasceu do interesse permanente da autora em juntar o antigo e o moderno, como ela já tinha feito em Barriga de Aluguel (1990) e Explode Coração (1995). Em O Clone, a conta foi juntar na mesma história a cultura islâmica e a clonagem.
Quem quiser comparar esse jeito de escrever com o de outros nomes da teledramaturgia pode ver a nossa lista de autores de novela do Brasil.
Quem explicou clonagem para a autora
Glória Perez não escreveu de ouvido. O geneticista Walter Pinto e a doutora Aline Chaves Alexandrino orientaram a autora nas questões sobre clonagem humana, segundo o Memória Globo, e os pesquisadores da novela também consultaram o geneticista Sérgio Simões.
O elenco entrou na preparação. Os atores visitaram clínicas de fertilização e laboratórios de clonagem, tiveram aulas de expressões árabes e prática de orações, além de aulas de dança do ventre. A cultura muçulmana teve consultoria dos xeques Jihad Hassan Hammadeh e Abdelbagi Sidahmed Osman.
O mesmo método valeu para o outro tema forte. Para falar de dependência química, a autora visitou várias clínicas de reabilitação e entrevistou muitos dependentes, e se comprometeu a não identificar ninguém no ar. Por isso a TV mostrava só close de boca ou de olhos.
Como a Globo "duplicou" Murilo Benício
Um ator, três papéis, muitas cenas em que dois deles aparecem juntos. Em 2001, isso era trabalho de artesão.
Os produtores usaram um software canadense, o Inferno, mas em muitos casos foi preciso inserir, quadro a quadro, pedaços de uma imagem em outra. O ator gravava duas vezes a mesma sequência, como Diogo e como Lucas, ou como Lucas e Léo, com o mesmo cenário ao fundo. As duas tomadas eram "recortadas" e fundidas.
Quando os personagens se tocavam, como um irmão mexendo no cabelo do outro, entrava um dublê. A tela mostrava um homem ao lado dele mesmo, e o que o espectador não via era a emenda feita quadro a quadro.
A abertura seguiu a ideia. O bailarino Floriano Nogueira criou uma coreografia para dar vida ao homem que se duplica, gravada com fundo de chromakey. Hans Donner, que coordenou a equipe, explicou que a intenção era passar a ideia de um embrião que voa pelo espaço.
A estreia que podia ter dado errado
O Clone estreou pouco depois dos atentados de 11 de Setembro, nos Estados Unidos. Era um risco: um dos núcleos principais era de personagens muçulmanos, e a Globo registra que isso poderia prejudicar a aceitação da trama.
Não prejudicou. A novela "virou um sucesso de público", nas palavras do Memória Globo. A música A Miragem, de Marcus Viana, tema de Jade e Lucas, marcou o público ao longo dos nove meses de exibição.
Marrocos: 40 dias, cinco cidades e 53 graus
As primeiras cenas foram gravadas em cinco cidades do Marrocos, onde elenco e equipe ficaram 40 dias. As locações incluíram as ruínas da kasbah Ait Ben Hadou, em Ouarzazate, o mercado de camelos de Marrakech, a cisterna portuguesa de El Jadida e a medina de Fez, cidade do século VIII.
Em Erfoud, às portas do Saara, o diretor Jayme Monjardim comandou uma sequência com 25 camelos e 12 beduínos. Virou uma das cenas marcantes.
O calor cobrou o preço. O Memória Globo conta que duas câmeras pararam de funcionar com 53 graus e que a base da novela no Rio teve de mandar duas câmeras extras. A areia escaldante descolava a sola de borracha de tênis e sapatos, e a equipe comprou sandálias de couro.
Quem gosta desse tipo de bastidor encontra mais casos na nossa lista de novelas gravadas no exterior.
A medina de Fez que cabia no Projac
Nem tudo foi gravado fora. No Projac, a Globo construiu uma réplica em menor escala da medina de Fez, a primeira construção do complexo a reproduzir o mundo oriental.
A cidade tinha duas ruas principais e seis transversais de, no máximo, 1,8 metro de largura, com paredes de 8 metros de altura. Abrigava o pátio da casa de Ali (Stênio Garcia), a casa de Said (Dalton Vigh) e oito lojas. Cerca de 50 figurantes atuavam ali, todos escolhidos em teste.
Também saiu do papel a boate Nefertiti, com fachada de ruína, esculturas egípcias e múmias integradas aos shows de dança. Cerca de 700 peças de figurino foram compradas no Marrocos, de túnicas a vestidos de noiva.
Maktub, Inshalá e "Não é brinquedo, não!"
A novela mudou o jeito de falar. Expressões árabes ditas pelos personagens ganharam as ruas, segundo o Memória Globo: Maktub, Inshalá, Haram, "Jogar ao vento" e "Arder no mármore do inferno".
Do bar de São Cristóvão, na zona norte do Rio, saiu "Não é brinquedo, não!", de Dona Jura (Solange Couto). O bordão foi criado pela própria atriz. Odete, a personagem de Mara Manzan, deixou "Cada mergulho é um flash".
O bar da Jura virou ponto de passagem de famosos: Ronaldinho Gaúcho, Pelé, Zeca Pagodinho, Alcione e Ana Maria Braga, com o papagaio Louro José, estão na lista de participações. Pelé aproveitou a visita, em março de 2002, para lançar a música Em Busca do Penta.
O recorde das oito que caiu
Segundo a Globo, O Clone foi, até então, a novela de maior audiência da emissora no horário das 20h. Bateu o recorde de A Indomada, de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, exibida em 1997.
Ninguém, naquela faixa, tinha chegado tão alto. Para entender o peso que o horário das oito tem na TV aberta, vale ler a história da telenovela no Brasil.
Telemundo, 90 países e bebês chamados Jade
A novela atravessou fronteira. Com a exibição de O Clone (El Clon) a partir de janeiro de 2002, a Telemundo, emissora voltada à comunidade hispânica nos Estados Unidos, teve a audiência aumentada em 60%, segundo o Memória Globo.
A versão original foi o maior sucesso de audiência de todos os tempos do canal no horário das 22h, e a Globo diz que a novela foi vendida pela divisão internacional para mais de 90 países. Entre eles: Argentina, Chile, Colômbia, El Salvador, Moçambique, Peru e Romênia.
Foi recorde de audiência no Kosovo, na emissora RTV21, e sucesso na Sérvia, na Rússia e na Albânia, onde Antonio Calloni deu entrevista que saiu na primeira página de um jornal local. Giovanna Antonelli e Murilo Benício foram eleitos o casal mais famoso do mundo em 2002 pela versão hispânica da revista People, segundo a Globo.
Geraldo Casé, então diretor artístico da área internacional, disse à Isto É Dinheiro, em julho de 2003, que jamais uma novela tinha influenciado tanto os costumes dos lugares onde foi exibida. Segundo ele, muitos bebês americanos nascidos em 2002 ganharam o nome de Jade, e academias de Portugal passaram a oferecer aula de dança do ventre.
Em maio de 2008, a Globo e a Telemundo Studios fecharam um acordo para uma versão em espanhol, gravada na Colômbia com elenco hispânico. Mais casos de novela que viajou estão em novelas brasileiras que fizeram sucesso no exterior.
O reencontro de Barriga de Aluguel
Há um detalhe que só quem acompanhava Glória Perez desde os anos 1990 pega. Os médicos Dr. Molina (Mário Lago) e miss Brown (Beatriz Segall), personagens de Barriga de Aluguel (1990), apareceram em O Clone numa discussão ética e científica sobre a clonagem humana.
Era a mesma autora puxando um fio de onze anos antes, num tema em que a ficção já tinha ido ao laboratório. Foi a última participação de Mário Lago na TV, segundo o Memória Globo.
O que fica para quem for rever
O Clone tem uma lição de ofício. A autora pesquisou clonagem com geneticistas, estudou o Islã com xeques, gravou em Fez e em Erfoud, e só então o mundo bateu na porta com a notícia de Antinori.
A coincidência fez barulho, mas a preparação descrita nos bastidores é o que explica os nove meses de novela no ar. Quem for rever a trama pode procurar as cenas do clone Léo e as do núcleo de Fez: são as que mais mostram o trabalho que a Globo detalha.
Os dados deste texto estão nas páginas de curiosidades e de bastidores de O Clone no Memória Globo, conferidas em 14/10/2026.
Fontes
- Memória Globo: O Clone, curiosidades (conferido em 14 de outubro de 2026)
- Memória Globo: O Clone, bastidores (conferido em 14 de outubro de 2026)
- Memória Globo: O Clone (conferido em 14 de outubro de 2026)
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