Cidade de Asa Branca vivia de um milagre, e o santo era um homem dado como morto
A cidade de Asa Branca, da novela Roque Santeiro, vivia de um falso milagre. Veja quem lucrava com a lenda, a viúva inventada e a censura de 1975.

Na novela, a cidade de Asa Branca vivia de um milagre que ninguém tinha visto. O santo era um homem dado como morto, e a população atribuía a ele curas e graças. Quem mais lucrava com a fé não era o povo, e sim quem mandava na praça e na prefeitura.
Como um desaparecimento virou santidade
No dia em que o bando de Navalhada invadiu Asa Branca, Roque Santeiro, vivido por José Wilker, desapareceu. Foi dado como morto. Uma menina disse ter visto o rapaz em uma visão, e a notícia se espalhou rápido. Logo a cidade ergueu uma estátua em homenagem ao herói na praça pública, e os moradores passaram a pedir milagres a ele.
Roque era um coroinha e artesão de santos de barro. Ele tinha morrido como mártir, ao defender a cidade do bandido Navalhada, vivido por Oswaldo Loureiro. O santo era um homem dado como morto, e a fé crescia em cima disso.
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Quem ganhava com a lenda na cidade de Asa Branca
A lenda trouxe romeiros, fama e dinheiro. O comerciante Zé das Medalhas, vivido por Armando Bógus, era o principal explorador da imagem do santo. O padre Hipólito, interpretado por Paulo Gracindo, era conservador e também se sentia ameaçado. O prefeito Florindo Abelha, de Ary Fontoura, tinha grandes ambições políticas, mas vivia dominado pelos poderosos que o tinham elegido. Completava o grupo o fazendeiro Sinhozinho Malta, de Lima Duarte.
Todos tinham motivos para não querer ver o santo de volta. Por isso, quando Roque reaparece em carne e osso 17 anos depois, o poder e a riqueza local entram em risco.
A viúva inventada
Porcina, vivida por Regina Duarte, nunca tinha conhecido Roque. Incentivada por Sinhozinho, ela espalhou que tinha se casado com o santeiro, e a mentira virou patrimônio da cidade. Só depois, quando conheceu Roque de verdade, Porcina se apaixonou por ele de fato. Foi aí que nasceu o principal triângulo amoroso da trama, com Sinhozinho e o santo.
Quem quiser entender o desfecho dessa história pode ler a matéria sobre o final alternativo da viúva.
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A versão que a censura proibiu
Antes da novela que o público conheceu, Roque Santeiro teve uma primeira versão, em 1975. Betty Faria fazia Porcina, Lima Duarte era Sinhozinho e Francisco Cuoco, Roque. A Censura Federal proibiu a exibição ao perceber que o texto era uma adaptação de O Berço do Herói, peça de Dias Gomes escrita em 1963 e já vetada antes.
No dia da proibição, Cid Moreira leu no Jornal Nacional um editorial assinado por Roberto Marinho, presidente da Rede Globo, anunciando o veto. A emissora teve apenas três meses para colocar outra novela no lugar. O caso ainda rendeu uma história completa sobre a censura da novela em 1975, que vale a leitura para quem quer o contexto.
Uma cidade feita de madeira
A cidade de Asa Branca foi construída em Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro. O cenógrafo Mário Monteiro criou uma cidade parecida com Juazeiro do Norte, no Ceará, com Porto das Caixas, no Rio, e com Aparecida, em São Paulo. Todas vivem da religiosidade popular, e Asa Branca tinha identidade própria.
A obra levou 20 dias. Foram 180 homens e 26 prédios de madeira tratada, escolhida para durar mais.
A novela foi ao ar entre 24 de junho de 1985 e 22 de fevereiro de 1986, no horário das 20h30, em 209 capítulos. A trama completa e a ficha técnica estão no acervo oficial da Memória Globo, para quem quiser conferir os detalhes da produção.
Fonte: memoriaglobo.globo.com


