Claudia Raia lutou por Tonhão e derrubou glamour no TV Pirata
Claudia Raia precisou insistir com Guel Arraes para interpretar Tonhão, personagem que a colocava em cena longe do glamour associado à sua imagem. No...
Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

Reprodução / globo
Claudia Raia precisou insistir com Guel Arraes para interpretar Tonhão, personagem que a colocava em cena longe do glamour associado à sua imagem. No TV Pirata, a atriz trocou a figura de símbolo sexual por uma caracterização com touca de meia e gestos que a deixavam quase irreconhecível.
O episódio é contado no Memória Globo e pertence aos bastidores do humorístico que estreou em 1988. A transformação não era um acidente de figurino: fazia parte de um programa que usava atores conhecidos para desmontar a linguagem da televisão, inclusive a programação da própria Globo.
Por que Claudia Raia precisou defender Tonhão?
O arquivo registra que a atriz teve de convencer o diretor a deixá-la assumir o papel em As Presidiárias. A caracterização contrariava a aparência pela qual ela costumava ser reconhecida e abria espaço para um registro de humor diferente.
Segundo o depoimento de Bussunda, um dos redatores, o projeto original do quadro teria o nome de TV Machão e reuniria as atrizes do programa. A ideia sofreu transformações antes de chegar à forma lembrada pelo público.
Tonhão acabou ocupando um lugar de destaque na galeria da atração. O personagem apareceu até em uma mensagem de fim de ano ao lado de Barbosa, de Ney Latorraca, reunindo duas figuras que haviam conquistado identidade própria.
O relato fala de uma negociação artística sobre um papel. Não descreve agressão, rompimento contratual ou uma briga pública entre Claudia e Guel, mas a insistência de uma atriz para experimentar uma possibilidade de interpretação.
Como a abertura já atacava a televisão?
A primeira vinheta, exibida em abril de 1988, mostrava piratas invadindo uma emissora. Eles interrompiam o ambiente de um telejornal, ocupavam a sala de controle e colocavam uma fita para iniciar outra programação.
A invasão era encenada, não um acontecimento real nos estúdios. Funcionava como uma apresentação do conceito: durante aquele espaço da grade, os códigos da televisão passariam a ser usados contra a própria televisão.
Outra vinheta, criada por Ricardo Nauemberg, mostrava a marca da emissora sendo destruída em um choque com a do TV Pirata. Em 1992, o retorno ganhou uma televisão animada e outra identidade de abertura.
Essas escolhas permitiam que o espectador reconhecesse o tom antes de qualquer diálogo. Em vez de apresentar um palco neutro para piadas, a atração fingia tomar o controle do aparelho e bagunçar os programas que normalmente ocupavam a tela.
O que havia por trás dos 33 quadros da estreia?
O programa não dependia de uma única família ou de um mesmo cenário. A primeira edição levou ao ar 33 quadros, com mudanças rápidas de situação e poucos segmentos destinados a continuar nas semanas seguintes.
Novelas, telejornais, entrevistas, publicidade e mensagens de utilidade pública viravam matéria-prima. O público precisava reconhecer a linguagem original para perceber como o humor a deslocava.
A equipe de texto reunia escritores, dramaturgos e integrantes de publicações de humor. Entre os nomes estavam Luis Fernando Verissimo, Mauro Rasi, Patricya Travassos e profissionais ligados à Casseta Popular e ao Planeta Diário.
A supervisão de texto era de Cláudio Paiva, e a direção envolvia Guel Arraes, José Lavigne e Carlos Magalhães. A ficha do programa registra a estreia em 5 de abril de 1988, na faixa das 21h30 de terça-feira.
Esse modelo exigia mais do que repetir bordões. Uma mesma edição podia levar os atores de uma paródia de novela a um noticiário absurdo, alterando cenário, figurino, voz e ritmo de interpretação.
Como uma novela virou Fogo no Rabo?
A paródia de Roda de Fogo criou um dos espaços mais conhecidos do TV Pirata. Fogo no Rabo abrigava Barbosa, personagem de Ney Latorraca que depois ganhou seu próprio quadro de entrevistas, Barbosa Nove e Meia.
A atração também transformou a novela Tieta em Dieta. Em vez de apenas trocar nomes, a versão humorística reorganizava o universo da obra em torno da comida, com personagens que apareciam acompanhados de guloseimas.
No Casal Telejornal, Luiz Fernando Guimarães e Regina Casé misturavam notícias absurdas com problemas domésticos. A bancada era deslocada para a cozinha de um apartamento, expondo o contraste entre a solenidade da locução e a banalidade da convivência.
Já Piada em Debate reunia convidados fictícios para discutir uma anedota em detalhes. O excesso de análise e a repetição das imagens imitavam mecanismos conhecidos dos programas de discussão televisiva.
O alvo, portanto, não era apenas uma celebridade isolada. A estrutura dos gêneros, suas frases, seus cenários e sua forma de conferir importância a um assunto também entravam na piada.
Como um suspensório ajudou a construir Barbosa?
Ney Latorraca descreveu o personagem como uma criação coletiva, formada por contribuições de atores, autores e profissionais de produção. Sua sugestão de manter a braguilha aberta foi combinada com decisões de figurino de Marília Carneiro.
Suspensório, calça curta, sapato preto e meia branca completavam o visual. As referências evocavam tradições de comédia física, nas quais o corpo e a roupa ajudam a comunicar o personagem antes mesmo da fala.
A equipe também criava macacões de espuma para alterar as proporções dos atores em outros quadros. O efeito visual cobrava um preço concreto nos bastidores: as peças provocavam calor durante o trabalho.
No Casal Telejornal, a caracterização precisava acompanhar mudanças de aparência da apresentadora Leila Cordeiro, uma das inspirações. Às vezes, a peruca ficava pronta quando a jornalista já estava usando outro penteado.
A variedade de cenários era assinada por Lia Renha, enquanto Marília Carneiro e Billy Accioly trabalhavam os figurinos. O exagero era deliberado, porque cada esquete precisava estabelecer rapidamente um universo e tornar sua deformação visível.
Quem era Ney Latorraca antes do velhinho de bico?
Ney já havia construído uma trajetória de personagens marcados por detalhes de postura e caracterização. Sua estreia na Globo ocorreu em Escalada, em 1975, como Felipe, um personagem que não falava.
Em Estúpido Cupido, interpretou Mederiques e participou das escolhas de aparência do rapaz. O ator contou que preferiu uma composição com roupas pretas e uma lambreta, em vez da solução de maquiagem inicialmente proposta.
Na minissérie Rabo de Saia, viveu Quequé, um caixeiro-viajante dividido entre famílias. Depois, em Vamp, aceitou uma participação que inicialmente previa poucos capítulos, mesmo conciliando o trabalho com o teatro.
Barbosa se insere nesse percurso de figuras reconhecidas pela maneira de se movimentar e falar. Ney relatou que foi aumentando o bico do personagem até transformar aquele gesto em uma marca solicitada pelo público fora da televisão.
A lembrança mostra como a composição podia evoluir durante a exibição. O tipo não dependia só do texto que chegava ao estúdio: ganhava novas dimensões na repetição, na observação e nas escolhas do intérprete.
O que Guel Arraes já havia experimentado antes do programa?
Guel entrou na Globo em 1981 e começou trabalhando na direção de novelas. Dividiu tarefas com Jorge Fernando e Roberto Talma em Jogo da Vida, antes de participar de outras produções da emissora.
Sua parceria com Jorge Fernando passou por Guerra dos Sexos e Vereda Tropical. Mais tarde, Armação Ilimitada abriu espaço para uma combinação de comédia, aventura e recursos associados à linguagem dos videoclipes.
O TV Pirata ampliou esse interesse em misturar formas e explorar a televisão como tema. O diretor não tratava a imagem apenas como registro de uma piada verbal, mas como parte da construção do humor.
Na sequência da carreira, participou de experiências que aproximavam ficção e observação do cotidiano, como Programa Legal e Brasil Legal. Também esteve ligado a projetos de dramaturgia semanal e ao uso de temporadas com quantidade definida de episódios.
Esse caminho ajuda a compreender por que a mudança de caracterização de Claudia Raia cabia na proposta. A atração procurava tirar profissionais e formatos de suas posições habituais para produzir novos efeitos de interpretação e montagem.
Por que o elenco e o formato mudaram?
A formação inicial reunia atores como Marco Nanini, Louise Cardoso, Debora Bloch, Diogo Vilela, Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. O grupo trazia experiências de teatro e televisão, sem reproduzir apenas a organização dos humorísticos tradicionais.
Em 1989, Pedro Paulo Rangel entrou no lugar de Nanini. No ano seguinte, Nanini voltou, e Maria Zilda Bethlem e Denise Fraga passaram a integrar a atração, enquanto Claudia Raia e Louise Cardoso deixaram aquela formação.
O programa saiu da grade em 31 de julho de 1990. Quando retornou em abril de 1992, passou a ter edições mensais organizadas em torno de temas específicos, com a entrada de Marisa Orth, Otávio Augusto e Antonio Calloni.
Essas alterações impedem tratar toda a trajetória como se fosse uma temporada única e imutável. O humorístico teve fases, trocou integrantes e experimentou outra frequência de exibição antes de encerrar seu percurso.
A história de Tonhão pertence a esse processo de experimentação, não a um retorno recém-anunciado. O contraste entre a imagem de Claudia e o papel ajuda a explicar como o programa encontrava humor justamente onde a televisão costumava preservar o glamour.
Fontes
- memoriaglobo.globo.com: — Claudia convence Guel Arraes a deixá-la interpretar Tonhão. (conferido em 14 de outubro de 2026)
- memoriaglobo.globo.com: — Conceito e proposta do humorístico. (conferido em 14 de outubro de 2026)
- memoriaglobo.globo.com: — Vinhetas de invasão ficcional da emissora.; — Paródias, telejornal, entrevistas e personagens.; — Figurinos, car (conferido em 14 de outubro de 2026)
- memoriaglobo.globo.com: — Vinhetas de invasão ficcional da emissora.; — Paródias, telejornal, entrevistas e personagens.; — Figurinos, car (conferido em 14 de outubro de 2026)
- memoriaglobo.globo.com: — Vinhetas de invasão ficcional da emissora.; — Paródias, telejornal, entrevistas e personagens.; — Figurinos, car (conferido em 14 de outubro de 2026)
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- memoriaglobo.globo.com: — Vinhetas de invasão ficcional da emissora.; — Paródias, telejornal, entrevistas e personagens.; — Figurinos, car (conferido em 14 de outubro de 2026)
- memoriaglobo.globo.com: — Vinhetas de invasão ficcional da emissora.; — Paródias, telejornal, entrevistas e personagens.; — Figurinos, car (conferido em 14 de outubro de 2026)
- memoriaglobo.globo.com: — Vinhetas de invasão ficcional da emissora.; — Paródias, telejornal, entrevistas e personagens.; — Figurinos, car (conferido em 14 de outubro de 2026)