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A Netflix teve um ano ruim ou a audiência só se espalhou? O que os números oficiais de 2026 mostram

Receita sobe 13%, horas assistidas só 2% e o YouTube bate recorde na TV. Veja o que as cartas da Netflix e a Nielsen dizem sobre a dúvida do ano no streaming.

Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles
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Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, sorri na Embaixada do Reino Unido em Washington, na cerimônia em que recebeu a condecoração CBE, em dezembro de 2024
Foto: UKinUSA / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0). Arquivo original, CC BY-SA 2.0

Pelos números oficiais, 2026 não é um ano ruim para a Netflix: a receita cresce 13%. O que mudou é o ritmo, e as horas assistidas sobem só 2% com o YouTube recordista na TV.

A dúvida circula em fóruns de assinantes, como o r/netflix do Reddit: a plataforma perdeu a mão ou o público apenas se dividiu entre mais telas? Para responder sem achismo, o TV de Perto leu as duas cartas aos acionistas da Netflix publicadas em 2026 e o relatório mais recente da Nielsen sobre o tempo de TV nos Estados Unidos. O retrato tem duas metades, e elas não se contradizem.

O dinheiro: receita ainda cresce, mas cada vez mais devagar

A carta do segundo trimestre, divulgada em 16 de julho de 2026, traz a receita de US$ 12,56 bilhões entre abril e junho, alta de 13,4% sobre o mesmo período de 2025. Sem o efeito do câmbio, a alta foi de 12%. Segundo a carta, a alta veio do aumento de assinantes, do reajuste de preço e da receita com anúncios.

O ponto de atenção está na sequência. O crescimento anual, que chegou a 17,6% no fim de 2025, vem caindo trimestre a trimestre, e a própria Netflix projeta 11,7% para o terceiro trimestre.

Trimestre Receita (US$ bilhões) Crescimento em 12 meses
2º tri 2025 11,08 15,9%
3º tri 2025 11,51 17,2%
4º tri 2025 12,05 17,6%
1º tri 2026 12,25 16,2%
2º tri 2026 12,56 13,4%
3º tri 2026 (previsão) 12,86 11,7%

Para o ano inteiro, a empresa estreitou a previsão de receita para a faixa de US$ 51,0 bilhões a US$ 51,4 bilhões e manteve a meta de margem operacional de 31,5%.

O lucro: margem acima de 30%

A margem operacional do segundo trimestre foi de 33,4%, um pouco abaixo dos 34,1% do mesmo trimestre de 2025, mas com lucro operacional maior em valor: US$ 4,19 bilhões, contra US$ 3,78 bilhões um ano antes. A previsão para o terceiro trimestre é de 33,2%.

Empresa em ano ruim não costuma entregar esse tipo de margem. O que os números mostram é uma companhia que cresce menos do que crescia, não uma que encolhe.

A audiência: 97 bilhões de horas, alta de 2%

É aqui que a pergunta dos assinantes ganha força. Segundo o relatório What We Watched citado na carta, os membros assistiram a mais de 97 bilhões de horas no primeiro semestre de 2026, alta de 2% sobre o ano anterior. Em 2025 inteiro, o avanço tinha sido de 1,5%.

A Netflix chama o ritmo de saudável e diz que ele veio apesar do impacto competitivo dos Jogos Olímpicos de Inverno e da Copa do Mundo de 2026. Ou seja, a própria empresa reconhece que eventos ao vivo de outras emissoras e plataformas tiraram tempo de tela dela neste ano.

Conteúdo fora do inglês respondeu por mais de um terço de tudo o que foi assistido no semestre, com destaque para títulos da Coreia, do Japão, da Espanha e da Índia.

Os sucessos que a Netflix aponta

A carta lista os títulos do segundo trimestre que mais puxaram audiência, contados em visualizações (horas assistidas divididas pela duração):

  • I Will Find You, série baseada em Harlan Coben: 87 milhões de visualizações, a maior estreia de série original de 2026 até então.
  • Teach You a Lesson, dorama coreano: 55 milhões, a caminho de virar a segunda série coreana mais vista da plataforma.
  • Legends, série britânica: 20 milhões.

Como esses números viram ranking semanal está explicado no guia sobre o Top 10 da Netflix no Brasil.

A fragmentação: o YouTube lidera a TV nos EUA

Do lado de fora da Netflix, o dado mais forte vem da Nielsen. No The Gauge de julho de 2026, publicado em setembro, o streaming somou 49,0% de todo o tempo de uso da TV nos Estados Unidos, e o YouTube bateu recorde com 14,2% sozinho. No ranking por grupo de mídia, o YouTube ficou 5,0 pontos à frente do segundo colocado.

O texto da Nielsen não traz a fatia da Netflix naquele mês, então não dá para dizer, só com ele, quanto ela ganhou ou perdeu. Mas o quadro geral é de atenção espalhada: o tempo de TV que vai para o streaming cresce, e uma parte grande dele vai para vídeo gratuito de criadores, não para séries por assinatura.

A Netflix mudou o jeito de medir o próprio sucesso

Um sinal importante está escondido na carta. A empresa escreveu que "nem todas as horas são iguais" e que engajamento passa a ser descrito em três dimensões: qualidade, variedade e quantidade. Na prática, a Netflix tira o foco do total de horas, justamente o número que cresce pouco.

Junto com isso veio uma mudança de calendário. O What We Watched, relatório de audiência que saía duas vezes por ano junto com o balanço, passa a ser anual, publicado no primeiro trimestre, a partir de 2027. A empresa diz que quer manter a atenção em receita e lucro operacional. O Top 10 semanal, em mais de 90 países, continua.

Para ampliar a variedade, a carta cita videocasts, criadores como Danny Go! e jogos na TV pela nuvem, um movimento que aproxima a Netflix do terreno do próprio YouTube. A aposta em publicidade também segue, tema do guia sobre o plano com anúncios no Brasil.

E no Brasil?

A Netflix não divulga resultado por país, mas mostra a América Latina. Ali a receita do segundo trimestre foi de US$ 1,58 bilhão, alta de 21% em 12 meses, a maior taxa entre as quatro regiões da empresa nesse trimestre. Descontado o câmbio, o avanço foi de 16%, atrás dos 18% da Ásia-Pacífico, ritmo que também vem desacelerando desde os 23% de um ano antes.

Trimestre Receita América Latina (US$ milhões) Crescimento Sem efeito do câmbio
2º tri 2025 1.307 9% 23%
3º tri 2025 1.371 10% 20%
4º tri 2025 1.418 15% 20%
1º tri 2026 1.497 19% 18%
2º tri 2026 1.584 21% 16%

O veredito dos números

Ano ruim, no sentido de perder dinheiro ou assinantes, os documentos oficiais não mostram. O que mostram é uma Netflix que cresce mais devagar, cuja audiência em horas quase parou de subir e que já admite disputar tempo com eventos ao vivo e com o YouTube. A sensação de "ano fraco" de parte do público conversa mais com a fragmentação da atenção do que com o caixa da empresa.

O próximo termômetro é a carta do terceiro trimestre, que vai mostrar se a desaceleração prevista de 11,7% se confirmou. Para quem acompanha o catálogo, a lista de séries de temporada curta mostra outra mudança do streaming: temporadas com menos episódios.

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