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Vale Tudo teve cinco finais escritos para esconder quem matou Odete

Os autores de Vale Tudo escreveram cinco versões do último capítulo e o elenco só soube do final na gravação. Veja o que o Memória Globo registra do mistério.

Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

Glória Pires sorrindo, de cabelo escuro e solto, em 2019
Foto: VIVA / Wikimedia Commons (CC BY 3.0), 2019. Arquivo original, CC BY 3.0

Quando Vale Tudo chegou ao último capítulo, em 1988, nem o elenco sabia quem tinha matado Odete Roitman. Os autores escreveram cinco versões do final, e os atores só viram a cena na hora de gravar.

Quem conta é o Memória Globo, o acervo oficial da emissora. Segundo a página de curiosidades da novela, a ideia era aumentar o clima de suspense num país que já não falava de outra coisa.

Abaixo, o que o acervo registra sobre o mistério: quanto tempo ele durou, o concurso que premiava quem acertasse, a confissão de Aguinaldo Silva sobre a escolha da assassina e o que a novela deixou de herança, da trilha à gíria que o público criou.

Cinco finais e um elenco no escuro

O número vem direto da fonte: cinco versões diferentes para o último capítulo. Segundo o Memória Globo, o elenco só teve acesso à cena decisiva durante a gravação.

Pense no que isso significa num set de novela. Ator que sabe o desfecho carrega o segredo no olhar, no jeito de pisar, na forma de calar. Ator que não sabe só pode interpretar o que a cena pede naquele minuto. A produção escolheu manter o segredo longe até de quem estava em cena.

Só que o segredo não era só de bastidor. Era uma escolha de roteiro, e ela teve dono.

Quem decidiu, e quando

O Memória Globo atribui a explicação a Aguinaldo Silva, que assinou a autoria de Vale Tudo ao lado de Gilberto Braga e Leonor Bassères. Segundo ele, a escolha de Leila, vivida por Cassia Kis, como assassina foi uma decisão de última hora.

O motivo, nas palavras do acervo: da forma como a cena foi armada, vários personagens poderiam ter praticado o crime. A cena fechava com muitas portas abertas, e a autoria teve de escolher uma.

Essa é a parte que a gente costuma esquecer quando fala do "grande mistério". O culpado não sai descrito como um plano guardado desde o primeiro capítulo. Sai de uma trama montada para deixar muita gente sob suspeita, e de um momento em que alguém precisou fechar a porta.

Onze capítulos que pararam o país

O mistério em si durou pouco, e a fonte faz questão de dizer: 11 capítulos. Mesmo assim, segundo o Memória Globo, a identidade do assassino de Odete Roitman povoou as conversas pelo país.

É um dado que vale conferir contra a lembrança. Muita gente guarda Vale Tudo como uma novela inteira girando em torno de "quem matou?". A conta do acervo é outra: a pergunta ocupou onze capítulos, e já bastou para dominar a conversa.

O concurso para quem acertasse o assassino

Houve ainda um concurso, patrocinado por uma indústria alimentícia, para premiar quem acertasse o nome do assassino de Odete Roitman. A informação consta do Memória Globo, que não detalha o nome da empresa nem o valor do prêmio. Por isso este texto também não.

O que o registro mostra já é bastante. A dúvida deixou de ser só da tela e virou jogo com prêmio. E, com cinco finais escritos e o elenco no escuro, o resultado não tinha como vazar de dentro do set.

Odete Roitman: a vilã que voltou depois de cinco anos

Odete Roitman virou uma das vilãs mais lembradas da teledramaturgia, segundo o acervo. A personagem marcou a volta de Beatriz Segall à Globo depois de cinco anos longe da emissora.

O último trabalho dela antes disso, diz o Memória Globo, tinha sido em Champagne (1983), de Cassiano Gabus Mendes. Lá, Beatriz interpretou Eunice, uma mulher pobre e humilde, o oposto das grã-finas que se acostumara a fazer na TV.

Em Vale Tudo, o vice-presidente do grupo Almeida Roitman, Marco Aurélio (Reginaldo Faria), é subordinado apenas a Odete, segundo a página da novela. Os bastidores registram outro traço: a figurinista Helena Gastal não teve dúvidas ao caracterizá-la como uma mulher que gostava de seduzir homens mais novos, e pôs a atriz com os joelhos à mostra.

O segredo do carro e a filha que carregou a culpa

Na própria casa, o peso era outro. Pelo relato do acervo, Odete faz a filha Helena (Renata Sorrah) acreditar que é a responsável pela morte do irmão. A culpada, na verdade, é a própria Odete, que dirigia o carro na noite do acidente.

A revelação vem de Ruth (Zilka Salaberry), a antiga empregada que escondeu o segredo por anos e só o conta na reta final da novela. Por causa disso, segundo o Memória Globo, Heleninha se torna "mais uma das suspeitas" do assassinato da mãe.

Por que tanta gente tinha motivo

Aqui está o detalhe que explica a frase de Aguinaldo Silva sobre "vários personagens". A novela mostrou uma Odete que, pelo relato do acervo, manipulava a filha e escondia a verdade sobre a morte do filho. A página da novela descreve Marco Aurélio como desonesto e inescrupuloso, capaz de fazer qualquer coisa para se dar bem, e envolvido com a própria Leila.

Com tantas pessoas na órbita de Odete, a escolha de última hora deixa de parecer capricho. É coerente com a frase da fonte: a cena foi armada de um jeito que deixava vários personagens possíveis.

A trama por trás do crime

Vale Tudo conta, no resumo oficial, a história de Raquel Accioli (Regina Duarte), mãe honesta, e da filha Maria de Fátima (Gloria Pires), jovem inescrupulosa que vende a única propriedade da família e foge com o dinheiro para o Rio de Janeiro. Raquel vai atrás da filha e passa a vender sanduíches na praia.

Fátima, enquanto isso, se alia a César (Carlos Alberto Riccelli), um mau-caráter que a estimula a seduzir o milionário Afonso Roitman (Cássio Gabus Mendes).

Além de tratar de problemas sociais e de valores como ética e honestidade, segundo o Memória Globo, a trama abordou o drama do alcoolismo, pela personagem Helena Roitman.

A gíria que nasceu de Heleninha

Aqui vai uma das heranças mais duradouras da novela, e ela também está no acervo. Em cena sobre o processo de recuperação de dependentes, Heleninha recorre aos Alcoólicos Anônimos. O diretor Dennis Carvalho, que chegou a participar da trama como William, leva Helena às reuniões, e os dois se tornam namorados.

Fora da ficção, como brincadeira, o nome da personagem acabou incorporado pelo público como sinônimo de alcoólatras ou pessoas embriagadas, diz o Memória Globo. É o que acontece quando a personagem sai da tela e vira palavra do dia a dia.

O cabelo e as roupas que o público copiou

O figurino também foi assunto. Pelo acervo, o corte de cabelo de Lídia Brondi, intérprete da produtora de moda Solange Duprat, caiu nas graças do público: liso, ruivo e com uma franja reta. Até as roupas vestidas pela personagem viraram moda.

Esse é o outro lado do mistério. Uma novela que faz o país discutir quem matou também faz o país copiar o que as personagens usam.

A trilha que ficou na memória

O Memória Globo lista composições de Cazuza, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Ivan Lins e Maria Bethânia. Pense Dance, do Barão Vermelho, era o tema de Maria de Fátima.

A trilha também ajudava a contar quem era quem. O tema de Leila era Pontos Cardeais, de Vítor Martins e Ivan Lins, na voz do próprio Ivan Lins. O tema do núcleo dos pobres era É, de Gonzaguinha, e Cazuza cantava o tema de Solange, Faz Parte do Meu Show.

Elenco que voltou e elenco que estreou

O acervo lembra que Vale Tudo marcou a volta de Pedro Paulo Rangel às novelas depois de dez anos. A última tinha sido O Pulo do Gato (1988), de Bráulio Pedroso, em que ele interpretou Chiquinho. Em Vale Tudo, ele faz Poliana, irmã de Aldeíde Candeias (Lilia Cabral).

Também foi a estreia de Marcello Novaes, Otavio Muller e Flávia Monteiro na Globo.

A ficha técnica fecha o quadro: autoria de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, direção de Ricardo Waddington e Paulo Ubiratan, direção-geral de Dennis Carvalho, direção executiva de Paulo Ubiratan e supervisão de Daniel Filho.

Mais de 30 países, duas reprises e um remake

Depois da exibição original, a novela viajou. Segundo o Memória Globo, foi exibida em mais de 30 países, entre eles Alemanha, Angola, Bélgica, Canadá, Cuba, Espanha, Estados Unidos, Itália, Peru, Polônia, Turquia e Venezuela.

No Brasil, foi reapresentada entre maio e novembro de 1992, em Vale a Pena Ver de Novo. Em 2002, a Globo e a Telemundo, braço hispânico da rede americana NBC, fizeram em coprodução o remake Vale Todo, adaptado por Yves Dumont, com direção-geral de Wolf Maya e elenco de língua hispânica. Foi a primeira produção da Globo voltada exclusivamente para o mercado externo, diz o acervo.

Em 2010, o Canal Viva reprisou a original, de segunda a sexta, às 0h45, e ela voltou a fazer enorme sucesso, "apesar do horário". A reprise trouxe de volta as discussões e os dramas das personagens e mostrou ao público os modos e costumes do fim dos anos 80. O visual dos atores, todos 22 anos mais jovens, chamou a atenção.

Para ler a seguir

Quem quer saber como decisões como a de Aguinaldo Silva acontecem no dia a dia, pode ler como uma novela é feita em nossa matéria sobre os bastidores da produção, ou conhecer quem são os autores de novela do Brasil. Para ver onde Vale Tudo se encaixa no gênero, há a história da telenovela brasileira. E, se a dúvida é em que faixa cada novela entra, o guia das faixas da Globo responde.

Para conferir cada informação, o ponto de partida é a página de curiosidades de Vale Tudo no Memória Globo, que reúne os cinco finais, o concurso e a decisão de Aguinaldo Silva.

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