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Novela A Favorita: público torceu pela vilã e o autor não reverteu

Em A Favorita (2008), a plateia ficou com Flora, a vilã de Patrícia Pillar. O que João Emanuel Carneiro admitiu, o que disse a antropóloga Esther Hamburger e a virada.

Por Redação TV de Perto · Edição: Bruno Teles

Patrícia Pillar de cabelo castanho cacheado, de blusa de renda, olhando firme para o espelho de uma penteadeira antiga, em foto de 2012 (não é de A Favorita)
Foto: Alex Carvalho / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0). Patrícia Pillar em 2012, imagem de outro trabalho, não de A Favorita. Arquivo original, CC BY-SA 2.0

Em A Favorita, de 2008, o público escolheu torcer por Flora, a vilã, e não por Donatela. O autor João Emanuel Carneiro contou que nada do que fez mudou isso.

A confissão está no Memória Globo, o centro de documentação da própria emissora. Segundo o Memória Globo, ele "encontrou dificuldades em equilibrar a torcida do público entre Flora e Donatela", que era a sua intenção na primeira fase da novela. Quase duas décadas depois, a história de como a plateia virou o jogo contra o roteiro continua sendo uma das mais curiosas da teledramaturgia.

Uma novela que escondeu quem era a vilã

A Favorita foi ao ar às 21h, de 2 de junho de 2008 a 17 de janeiro de 2009, em 197 capítulos, com direção-geral de Ricardo Waddington. O Memória Globo resume a ousadia numa frase: o autor "fugiu dos modelos habituais de folhetim ao iniciar a novela sem revelar ao público quem era a vilã e quem era a mocinha".

Na prática, o telespectador ouvia duas versões do mesmo crime. Flora (Patrícia Pillar) saía da prisão depois de 18 anos, condenada pela morte de Marcelo Fontini, marido de Donatela (Claudia Raia). Dizia que era inocente e que a antiga parceira de dupla sertaneja tinha armado tudo para ficar com a fortuna da família. Donatela dizia o contrário: tinha visto Flora atirar.

No meio estava Lara (Mariana Ximenes), filha biológica de Flora e criada por Donatela. O Memória Globo descreve a moça "abalada e confusa": assim como o jornalista Zé Bob e o público, ela não sabia em quem acreditar.

O que o autor admitiu sobre a torcida

O plano era claro no papel. Durante a primeira fase, a plateia ficaria dividida, sem saber quem mentia. Só que a divisão não aconteceu.

De acordo com o Memória Globo, os telespectadores "tomaram as dores de Flora e embarcaram em suas mentiras", e nada do que o autor fizesse para que gostassem de Donatela dava certo. Ele puxou a corda para um lado e a plateia puxou para o outro.

É o tipo de coisa que todo escritor de novela conhece. O personagem que o público adota nem sempre é o que o autor desenhou para ser o queridinho, e o capítulo seguinte tem de lidar com isso.

Pobre contra rica: a explicação de João Emanuel Carneiro

O autor tem uma teoria para a preferência. Ele atribui a escolha ao fato de Flora ser pobre e Donatela, rica. Segundo ele, o público tende a associar qualidades e virtudes a personagens de baixo poder aquisitivo e a adotar uma visão preconceituosa em relação aos ricos.

A explicação ajuda a ler as duas personagens. Donatela, nas palavras do Memória Globo, era "tida por todos como uma perua arrogante e consumista", com modos rudes. Flora tinha "ar angelical e sofredor". Antes de qualquer reviravolta, uma aparecia de couro, dourado e tecidos finos, e a outra de figurino reduzido e atemporal, como se tivesse parado no tempo durante os 18 anos de cadeia, conforme o texto de bastidores.

Fica uma pergunta que a fonte não responde e que cada espectador pode fazer por conta própria: se os papéis fossem trocados, com a pobre acusando a rica de ser a assassina, a torcida seria a mesma? A teoria do autor sugere que sim.

O que a antropóloga Esther Hamburger viu na novela

O Memória Globo registra também a leitura da antropóloga Esther Hamburger. Para ela, A Favorita inaugurou um novo ritmo na teledramaturgia e, ao mesmo tempo, resgatou o maniqueísmo, o jogo de bem contra mal que os autores vinham abandonando nas décadas anteriores.

O argumento dela é que, até ali, os heróis estavam cada vez mais anti-heróis e muitos vilões tinham um lado humano. Em A Favorita, a vilã Flora "rouba, mente, mata e, como se não bastasse, odeia a filha". Era uma vilã sem desculpa, e mesmo assim a plateia ficou com ela por boa parte da história.

Aviso: esta parte conta a virada da trama

A novela tem quase 18 anos, mas, se você ainda pretende ver, pule para o próximo intertítulo.

Segundo o Memória Globo, a resposta para o enigma central veio "ao fim do primeiro terço da trama". Pela conta simples da redação, 197 capítulos divididos por três, algo perto do capítulo 65. Foi numa das cenas mais comentadas da novela: Donatela ameaça matar Flora com um revólver, e Flora diz que ela nunca teria coragem de atirar, porque a verdadeira assassina ali é ela.

Os personagens não ouviram. Só o público ficou sabendo. O Memória Globo afirma que Flora enganou a todos com sua falsa doçura, inclusive os telespectadores que acreditaram nela.

A torcida mudou de lado, e o autor mudou o jogo

Com a revelação, o autor passou a conduzir a torcida de outro jeito: dali para a frente, a esperança do público era que Flora fosse desmascarada. O Memória Globo diz que assim terminou o que João Emanuel Carneiro chamou de "primeiro ato" da novela.

No segundo ato, Donatela passa a ser perseguida como assassina, depois de mais uma armação de Flora, que contou com a ajuda de Dodi e de Silveirinha. No terceiro, Donatela volta, dada como morta, e tenta provar a inocência. A divisão em atos é do próprio autor, que no perfil do Memória Globo diz se cansar rápido do que está contando e gostar de "subverter sempre as histórias".

O mesmo autor escreveria Avenida Brasil em 2012, outro caso de novela que dominou a conversa do país. A ligação entre as duas é leitura nossa, não afirmação da fonte, mas o fio é visível: João Emanuel Carneiro sabe que a plateia se agarra a quem faz a trama andar. Para conhecer outros nomes do ofício, a lista de autores de novela que marcaram a TV brasileira traz o histórico de cada um.

Como Patrícia Pillar construiu uma vilã que a plateia defendia

Parte do trabalho de convencer o público estava na preparação da atriz. Para viver Flora, Patrícia Pillar visitou o presídio feminino Talavera Bruce, em Bangu, na zona oeste do Rio, para conhecer a realidade das detentas. Teve ainda a ajuda da instrutora de dramaturgia Paloma Riani e da psicanalista Kátia Achcar na construção da subjetividade da personagem.

O resultado, segundo o Memória Globo, foi um dos grandes destaques da trama e a entrada da atriz no time das grandes vilãs das telenovelas. Flora tinha xingamentos sempre à ponta da língua: chamava Lara de "purgante" ou "vaquinha", por ser filha adotiva da "vaca" Donatela.

A novela ganhou dois prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) relativos a 2008: melhor autor para João Emanuel Carneiro e melhor atriz para Patrícia Pillar.

E a Donatela de Claudia Raia, que ficou sem a torcida

Do outro lado, o trabalho de Claudia Raia era mais ingrato. Segundo o Memória Globo, ela contou com a ajuda do ator Cacá Carvalho e da atriz e instrutora de dramaturgia Rosana Garcia para dar corpo a Donatela, "uma das poucas personagens dramáticas que fez na TV".

A atriz também tem uma lembrança de cena para contar. Entre as sequências que destaca, Claudia Raia recorda aquela em que Silveirinha (Ary Fontoura) revela seu rancor pela patroa e cospe no rosto dela. O ator cuspiu de verdade, e o que era apenas um ensaio acabou valendo como cena definitiva, com uns ajustes de edição.

Quando a raiva da plateia saiu da tela

O envolvimento do público tinha um lado pesado. O Memória Globo conta que o ator Jackson Antunes chegou a ser agredido na rua por um telespectador revoltado com as atitudes do personagem Leonardo, marido de Catarina (Lilia Cabral). Ele estava de muletas, por causa de uma trombose, e ficou internado durante três dias num hospital.

A novela tratava justamente do combate à violência doméstica nessa trama. O episódio mostra o tamanho da identificação que a ficção das nove provocava em 2008. Para entender de onde vem esse poder, vale ver como é feita uma novela, da escrita ao ar.

O que o público pediu: cabelo de Lara e camisas de Dodi

A relação com a plateia aparece também em pedidos mais leves. Nos sete meses de exibição, a Central de Atendimento ao Telespectador atendeu vários pedidos do público, com destaque para informações sobre o corte de cabelo de Lara e sobre onde encontrar as espalhafatosas camisas de Dodi (Murilo Benício).

O figurino de Dodi tinha ternos claros, camisas de cores fortes e um anel e uma pulseira inseparáveis. O corte curto e clareado de Lara, segundo o supervisor de caracterização Alê de Souza, foi inspirado em Mia Farrow no filme O Bebê de Rosemary (1968).

A novela ganhou ainda uma paródia no humorístico Casseta e Planeta, Urgente!, chamada A Periquita, e uma participação especial do apresentador Fausto Silva, na cena em que Cassiano e Augusto César se apresentam no programa Domingão do Faustão. Paródia e participação especial são dois sinais de que a trama entrou na conversa do país.

Onde rever as cenas

O Memória Globo mantém uma galeria de cenas marcantes de A Favorita, incluindo o confronto em que a verdadeira assassina é revelada. Quem quer entender por que Flora conquistou a plateia antes da hora tem ali o material de origem, e o contexto do gênero está na nossa matéria sobre a história da telenovela brasileira.

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